A Promessa e o Plano Eterno
da Salvação
"Mas vós, continuou ele, quem dizeis que eu sou?"
(Mt 16:16)
Qualquer
pessoa que se proponha a estudar a pessoa e a obra
de Jesus Cristo, só terá sucesso se considerar, antes
de mas nada, que sua vinda ao mundo nada teve de casual,
e nem mesmo de inesperada. O plano divino da encarnação
tinha sido, desde os primórdios da raça humana, anunciado
de muitas formas e maneiras, por intermédio de muitas
pessoas inspiradas diretamente pelo próprio Deus.
E mais do que anunciado, a encarnação do Filho de
Deus, com todas as suas conseqüências, havia sido
planejada desde a eternidade, pelo Deus Triúno. Antes
de considerarmos a pessoa de Cristo e suas obras,
convém estudar as várias promessas relacionadas a
sua vinda, bem como o planejamento, antes da fundação
do mundo, da encarnação do Homem-Deus. Somente tendo
isso claramente em nossas mentes é que conseguiremos
compreender o grande mistério da encarnação do Homem-Deus.
1. As Promessas da Vinda do Messias
- Quando Deus criou o homem, era seu propósito
desfrutar com ele uma comunhão íntima e pessoal. Infelizmente,
a intervenção do diabo e a entrada do pecado na natureza
humana retardaram esse propósito, e sua consecução
necessitou ser feita por um novo caminho. Caminho
este completamente dentro da soberania de Deus. Agora
o homem caído e escravizado pelo pecado, é alvo do
plano salvador de Deus. A relação de Deus com este
homem passa agora por dois crivos: seu amor e sua
justiça.
- Devido
a sua santidade e justiça, Deus deve punir o
homem por sua transgressão. Devido a seu amor, Deus
quer salvá-lo. A justiça divina exige que o homem
seja punido, receba o justo castigo por seus atos,
contudo o Seu amor não admite a idéia de abandonar
o homem em seu estado de miséria e desgraça, longe
de seu Criador e em permanente conflito espiritual.
- Como
conciliar tal dilema? A dívida do homem para com Deus
é imensa, impagável. Quem pode restituir plenamente
a um Deus que foi ofendido em sua justiça e santidade?
A restituição é virtualmente infinita. Não há como
pagar. E no entanto Deus em seu amor quer resgatar
o homem de tão terrível situação.
- O meio encontrado por Deus foi a encarnação da segunda
Pessoa da Trindade - o Filho. Por meio de sua morte
na cruz, o Filho de Deus proveu uma solução que satisfizesse
tanto a justiça como o amor de Deus. Nas palavras
de T. Haaberck "Só Ele pôde representar toda a humanidade
em sua própria pessoa, e expiar todo o seu pecado.
Assim a maldição do pecado foi anulada, o mundo reconciliado
e sua união com Deus restabelecida".
- A encarnação
do Filho propiciou os meios para que tanto o amor
com a justiça de Deus fossem satisfeitas. Mesmo na
queda do homem, em Gn 3, a misericórdia de Deus alcança
o homem antes de puni-lo por sua transgressão. O Salvador
já havia sido prometido antes da promulgação das maldições
oriundas do pecado (Gn 3: 15, 16ss). Este principio
é norteador para compreendermos a obra de Cristo e
nos identificarmos com sua pessoa. O Descendente da
mulher - Cristo - esmagaria a cabeça da antiga serpente
- Satanás - (Ap 12: 9), e este lhe feriria o calcanhar,
já apontando para o sofrimento e martírio do Messias.
Esta é a primeira alusão a vinda do Cristo.
- Durante todo AT, o fio condutor que liga os diferentes
livros e os torna uma impressionante unidade é a promessa
da vinda do Messias (o Ungido). Uma segunda confirmação
dessa promessa encontramos em Abraão (Gn 12: 1-3;
22: 18; Gl 3: 16), no qual Deus diz que todas
as nações seriam benditas em sua descendência. Depois
a mesma promessa foi confirmada ao filho de Abraão,
Isaque (Gn 26: 4, 5), e ao filho deste, Jacó (Gn 28:
13, 14). Jacó por sua vez teve doze filhos, que se
transformaram nas doze tribos de Israel e deram origem
ao povo hebreu, de onde descendem os judeus. E a promessa
foi também confirmada por Jacó a seus filhos ( 49:
9ss).
- A promessa do Filho também é confirmada por Moisés,
principal figura para o povo judeu, e mediador do
pacto da Lei. Ele profetiza a respeito do Profeta
que viria (Dt 18: 15-19), e que o povo deveria ouvir
e obedecer, sob pena de ter que prestar contas disso
a Deus. Na época dos reis de Israel, Davi, o grande
rei de Israel, recebe a promessa que seu Filho seria
Rei de um reino eterno, que nunca teria fim (II Sm
7: 11ss; Sl 72). O Messias passa então a ser chamado
pelo povo de Filho de Davi.
- Nos escritos dos profetas, são muitas as passagens
que aludem a vida do Messias, o Filho de Davi, a Raiz
de Judá ,o Renovo de Jessé, sobre o qual estaria o
Espírito de Deus em toda a sua plenitude (Is 11: 1,
2; Jr 23: 5; Ez 34: 23ss; 37:24ss; Os 3: 5; Mq 2:13;
5:1ss; Zc 3:8; 6:12; 9:9). A vinda deste Messias também
instauraria um novo pacto, diferente de todos os demais,
onde os corações seriam renovados e transformados
em morada do próprio Espírito de Deus (Jr 31: 31-34;
Ez 36: 23-27; Jl 3:1).
- O propósito da vinda do Messias foi, desde gênesis,
sendo ampliada. O descendente da mulher foi retratado
de várias maneiras pelos profetas. Isaías o descreve
como o Servo Sofredor, um homem de dores que levaria
sobre si os pecados dos homens (Is 42:1; 49:1; 53)
e também como o portador de boas notícias e de paz
(Is 61). Jeremias o descreve como Renovo Justo e Rei,
que reinará sabiamente (Jr 23: 5, 6). Ezequiel por
sua vez, o descreve como Bom Pastor, que cuida do
seu rebanho (Ez 34: 11-16, 23-25). Miquéias fala do
lugar onde o Messias nasceria (Mq 5: 1-3). Daniel,
profetiza a respeito do tempo de sua manifestação
a Israel (Dn 9: 24 ss). Zacarias o chama de Renovo,
a Pedra, Rei Justo, Salvador, Humilde (Ez 3:8; 9:
9,16), e descreve o preço que seria dado por sua vida
(Ez 11: 11-13). Cada profeta contribuiu com uma parte
da descrição do Santo que viria. Um rico e harmonioso
quadro a respeito do Messias emergia das escrituras,
deixando claro ao povo escolhido a certeza de sua
vinda, e a necessidade de sua preparação para aquele
grande dia.
- Apesar do número impressionante de passagens, os
líderes judeus fizeram um retrato errado do Messias,
e não o receberam (Jo 1:11) e não o conheceram (I
Co 2:8). Olharam apenas para as descrições que eram-lhes
agradáveis e aumentaram tais traços, criando a imagem
de um rei secular e político, desvestido de qualquer
natureza espiritual e divina. Mesmo João Batista,
seu precursor, ficou em dúvida se Jesus era realmente
o messias previsto (Mt 11:3), e até seus discípulos
mais íntimos não tinha uma real certeza da natureza
de sua missão e pessoa (Jo 14: 7, 8).
2. A Vinda de Cristo Prevista
desde a Eternidade
A necessidade
dos eventos terem ocorrido como de fato ocorreram
(criação-queda-encarnação do Filho- salvação) pressupunham,
de antemão a vinda do Messias. E esta já estava
prevista e planejada desde a eternidade.
Antes
da criação do homem já havia um plano eterno para
resgatá-lo dos efeitos malignos e tenebrosos
de sua decisão rebelde. Em seu amor, Deus já havia
suprido um meio de resgatar o homem de sua condição
de pecado. Alguém deveria assumir a culpa e pagar
completamente o débito devido a Deus. Como não havia
nenhum homem nessa condição, o próprio Deus, na
pessoa de seu Filho, vem e reconcilia o mundo
consigo mesmo (II Co 5:18). O Filho de Deus, portanto,
já havia se disposto a sacrificar-se pelo homem
antes mesmo da fundação de toda Criação(Ap 13: 8).
Não foi uma decisão obrigada, mas voluntária, pois
havia uma maravilhosa unidade nas Pessoas de Deus.
E o Filho havia assumido todas as conseqüências
dessa decisão, inclusive a sua morte na cruz. Deus
não teria criado o mundo, e assim o homem, se não
tivesse incluído dentro do plano da criação, um
plano de salvação. É nesse sentido que as Escrituras
afirmam a existência de um plano salvador antes
da fundação do mundo (Ef 1: 4-11; 3:10; At 4:28;
II Tm 1:9; I Pe 1:19). E este plano salvador se
constituía em um mistério que seria revelado em
tempo oportuno, e desde eternidade estava oculto
em Deus (Rm 16:25; Ef 3:9; Cl 1:26). Sempre foi
do plano de Deus que o homem estivesse eternamente
em comunhão com Ele.
Dessa
forma podemos dizer que a obra de Cristo já havia
sido planejada de antemão e foi anunciada, aos homens
por meio da promessa de vinda do Messias Salvador,
descrito nas Escrituras. Como prometido e planejado
Ele veio, e vimos sua glória, como o unigênito do
Pai.
3. A Plenitude dos Tempos
Uma
vez deliberado a vinda da segunda Pessoa do Deus
Triúno e planejado os meios de anunciamento do evento,
Deus, em sua sabedoria, determinou o tempo em que
o Filho haveria de encarnar. Este tempo não viria
antes que o povo de Israel tivesse completa consciência
da Unidade e genuinidade de Deus. Para tanto Deus
criou meios de preparar adequadamente seu povo para
reconhecer Aquele que seria seu Senhor e no qual
todas as nações seriam benditas.
Desde
a chamada de Abraão, seus descendentes foram separados
do convívio de outras nações, e ensinados a não
adorarem falsos deuses e não se deixarem contaminar
pelas práticas pagãs dos povos da terra. Em outras
palavras: Deus os santificou para seu uso exclusivo.
Com saída
do povo do cativeiro egípcio, o Senhor lhes mandou,
por intermédio de Moisés, a Lei, que constava de
ordenanças, rituais e mandamentos. A instauração
da Lei tinha quatro objetivos principais:
- Ser um meio de conter os pecados do povo
da promessa, até que esta tivesse se realizado
(Gl 3: 19).
- Tornar claro aos homens que, por seu próprio
esforço, nunca atingiriam o padrão de justiça
requerido por Deus, mostrando assim o real peso
do pecado na natureza humana (Rm 3:20; 5:20).
- Ser sombra das realidades espirituais
que viriam com o advento de Cristo, ou seja, a
Lei apontava para a pessoa de Cristo e seu ministério
(Hb 8: 5; 10: 1; Cl 2: 17).
- Ser um tipo de mordomo, educador, que
conduzisse o povo para Cristo (Gl 3: 24).
Sendo
assim, a Lei visava levar o homem, por meio
de figuras materiais, ao entendimento de verdades
espirituais. Todas as ordenanças e rituais eram
uma grande e preciosa parábola preparando o
povo para a realização dela (Hb 9: 6-14). Dessa
forma, a Lei só pode ser compreendida se for
considerada parte da realização da promessa,
e sem ela não faz sentido algum.
Os
profetas tiveram a missão de testemunhar ao
povo sobre o verdadeiro espírito e objetivo
da Lei, rejeitando o mero legalismo interior,
apontando para o pecado do homem, bem como chamando
para o arrependimento, anunciando juízo, e prometendo
perdão e restauração com o advento do Messias
na plenitude dos tempos (Is 1:1-18; 3: 1-4;
6; 8: 1-9; Jl 1-3; Gl 4:4etc.).
Uma
vez cumprida a missão, tendo-se completado o
período determinado de espera, Deus envia seu
Filho (Gl 4: 4-6), para resgatar todos aqueles
que estavam desgarrados. A espera da plenitude
dos tempos tem a dupla função de ensinar o povo
os objetivos descritos acima e preparar geográfica,
política, religiosa e culturalmente o mundo
para recepção e entendimento da mensagem eterna
do Verbo encarnado.
Na
época da encarnação, o ambiente geo-político
estava completamente centralizado em Roma, que
dominava o mundo conhecido. Roma tinha aberto
estradas e desbravado fronteiras até aos confins
do terra de então, o que sem dúvida foi de grande
serventia na disseminação missionária dos primeiros
cristãos. Culturalmente, a influência grega
tinha legado ao mundo a estrutura lógica de
pensamento filosófico, possibilitando o questionamento
de velhas religiões e tradições se fundamentavam
em crendices e superstições, o que sem dúvida
permitiu o reconhecimento do pensamento cristão
como algo que apela positivamente ao intelecto
e fé humanas. No aspecto religioso, os gentios
estavam atolados na idolatria reinante (Rm 1:18)
e cansados de rituais e ordenanças que não traziam
nenhum alívio e paz interior, o que os preparou
para receber com alegria a mensagem da salvação
pela fé. Quanto aos judeus estavam imersos no
legalismo e farisaísmo (Rm 2:17), mas contudo
havia ainda muitas pessoas, que a despeito da
hipocrisia nacional, esperavam a Consolação
de Israel (Lc 1:6; 2: 25; Jo 1:47). Também o
judaísmo, com suas sinagogas, havia se espalhado
por toda a costa do Mediterrâneo, o que muito
facilitou a pregação do evangelho pelos primeiros
cristãos judeus, como Paulo (At 13:14; 14:1;
17: 1, 2).
Sim, foi no tempo pleno para apresentar ao mundo
Seu Filho, que Deus o enviou. Nenhum período
da história universal esteve tão preparado e
maduro para receber as Boas Novas, quanto a
época da manifestação do Filho de Deus aos homens.
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